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Recurso é a mãe!

Nas últimas décadas, diante da ampla adoção de práticas de gerenciamento de projetos no mercado de tecnologia da informação, emergiu um termo envolto em controvérsias: recurso, usado para designar tudo que é necessário para que se realize um projeto, mas também para se referir às pessoas envolvidas nele. Neste artigo buscaremos um resgate de fatos e uma discussão sobre este termo e suas nuances nos projetos, equipes e no sentimento das pessoas.

De antemão, gostaria de dizer que não me agrada o uso deste termo para designar pessoas, mas por outro lado a expressão (mesmo sendo “fria”) faz sentido quando falamos de planejamento de projeto. É um excelente termo para descrever recursos materiais e de qualquer natureza física, e tem entendimento e aceitação quase universais no mundo dos negócios. Então não espere vê-lo desaparecer por completo tão cedo.

Em uma empresa onde trabalhei, e na qual estava encarregado das evoluções dos processos de gestão de projetos, questionei formalmente o termo “recurso” para designar pessoas. Rapidamente surgiu a pergunta sobre que termos deveríamos usar então, e na urgência por uma solução simples e rápida, acabamos optando por usar o termo “recursos humanos” ou “pessoas”, para diferenciação. Uma solução nada elaborada, eu confesso.

Note que a utilização da palavra “recurso” para designar também as pessoas de um projeto vem de muito antes da moderna gestão de projetos ser parte do dia-a-dia da TI.

A expressão “recursos humanos” (em inglês, human resources) é bastante difundida, e suas origens nas fileiras corporativas remontam ao começo do século XX. Não raro, ainda hoje dá nome ao departamento responsável por pessoas em um grande número de empresas. No entanto, qualquer um que esteja atuando em uma organização moderna, neste começo de século XXI, sabe que se desenha uma forte preferência por novos termos como “talentos”, “capital humano”, “pessoas”, “gente”, e outros mais.

As práticas modernas de gestão de projetos tem seu embrião em organizações como a NASA e a Boeing, no que posteriormente se transformaria no Project Management Institute (PMI) – fundado em 1969 – e no seu guia PMBOK – publicado pela primeira vez em 1983. A primeira versão do PMBOK, aliás, já incorporava a expressão “recursos humanos” como a forma de tratar (também) as pessoas dentro do projeto, e isto pouco mudou nas versões posteriores. A versão atual do guia ainda fala em “recursos humanos”, e dedica uma das suas nove áreas de conhecimento para o assunto. No entanto, ao falar da execução do projeto, substitui o termo por “equipe do projeto”. Mesmo assim, o glossário do guia ainda associa a palavra “recurso” a pessoas de forma direta.

As abordagens ágeis, por sua vez, são bem enfáticas em defender a interação humana sobre processos e ferramentas. Isto consta do Manifesto Ágil e é um recado muito claro de que pessoas não são máquinas.

Uma visão conciliadora, da qual eu gostei, é apresentada por Gil Broza em um artigo onde diz que recursos não são as pessoas em si, mas “a disposição que demonstram em dedicar sua energia para o projeto”. Em outras palavras, sua motivação e comprometimento com o trabalho a ser feito. Concordei quando li a primeira vez e agora revisitando a frase ainda acho correta, porque dá a entender que não “se alocam recursos”, e sim “se motivam pessoas para que se comprometam com algo”.

Isto me faz lembrar que durante muito tempo acreditei que a palavra “resource” em inglês tinha um sentido mais nobre do que a nossa “recurso”, e que isto pudesse explicar alguma coisa. Este sentido seria algo como “ser a fonte de” ou “ser a origem de”, mas hoje acredito que eu estava enganado, que de fato ela é tão (ou mais) pejorativa e mecanicista quanto a sua correspondente em português.

Em outro artigo, Pawel Brodzinski é enfático ao repudiar o termo e questiona “como podemos querer valorizar as pessoas chamado-as de recursos, de commodities?”. Não há como discordar dele, pois realmente duvido que alguém goste de ser chamado de recurso (acredite, há dezenas de exemplos onde as pessoas foram/são tratadas assim).

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“Não chame as pessoas de recurso, e sim pelo seu nome”, podemos bradar neste momento da conversa, mas na realidade acredito que isto é o que menos importa. Mas o artigo não era sobre isto?! Explico: o que realmente importa são suas atitudes e valores. Ainda que o termo possa ser interpretado como uma evidência de frieza das pessoas ou empresas que o usam, por outro lado existem aqueles que o aboliram, “lavam com sabão” a boca de quem o pronuncia, mas são incipientes e retrógrados em suas ações voltadas às pessoas.

Empresas e gestores: mostrem em suas ações que as pessoas não são recursos. Caso não sejam capazes, de nada adianta o nome pelo qual você vai chamá-los.

Imagem: Dilbert.com.

Autor: Marco Alan Rotta

A sinceridade em pessoa...

2 pensamentos sobre “Recurso é a mãe!

  1. Excelente artigo Marco, gostei principalmente dos dois últimos parágrafos.